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04 setembro, 2013

A nossa hora



    Seus olhos nunca mais encontraram os meus. Você está ocupada demais fugindo de mim como o diabo foge da cruz – olha o prato, vê se ninguém fala contigo no celular, olha o relógio e vê se já deu a hora. Dá meia volta, me engana, diz que só quer saber se já são nove horas, se a novela já vai começar. Eu enrolo, continuo comendo, mastigo devagar, tudo para não ter que contar que sei muito bem que você só quer saber se a hora que deu foi a nossa.



    Já deu nossa hora. Mas você tem medo de admitir e eu tenho preguiça demais para falar em voz alta também. E então espero você andar de um lado para o outro da cozinha, enquanto corre os olhos de cinco em cinco segundos para o relógio. Daqui a meia hora vai ter acabado de vez. Daqui a meia hora eu vou ter falado alguma palavra muito errada ou cometido um pecado muito grave. Daqui a meia hora você vai chorar e jurar que queria que tivesse sido para sempre.



    Você vai dizer que tentou de tudo. E eu vou dizer que a gente devia tentar um pouco mais. Mas nem devia. Eu também não tenho mais força pra te convencer que você é a mulher da minha vida. Nem mais a certeza de que você é ela mesmo. Um dia, eu pensei em me casar com você e passar o resto da vida ao seu lado. Mas aquela mulher com quem eu sonhei o meu futuro não parece em nada com o rosto vazio que eu encaro agora.


    Eu tento pensar como foi que nós terminamos assim. Nós costumávamos nos amar tanto. Eu passaria horas ao seu lado, sem dizer uma palavra, amando o seu silêncio. Agora, essa ausência de palavras me desespera. Tenho a impressão, a todo momento, de que você vai começar a gritar e a apontar todos os meus defeitos, feito alguém que nunca me amou mesmo sabendo de todos eles. Tenho a impressão de que a qualquer momento eu também vou levantar meu dedo e apontar os seus.



    Bom, não precisa gritar, quebrar nenhum prato, nem jogar na minha cara como nós não demos certo. Pode olhar o relógio o tempo que quiser, pode ficar assistindo a nossa hora chegar. Daqui a menos de meia hora, você vai ter passado de grande amor da minha vida a mera desconhecida. Não vou impedir nada, não vou brigar, não vou querer te convencer que poderíamos ter sido tudo. Tenho a impressão de que o que nós poderíamos ter sido nós fomos. E o que não fomos? Felizes para sempre.

Texto escrito pela colunista Érica Maria

29 agosto, 2013

Eles não sabem nada de amizade.



    Não. Eu não comemorei sua entrada na universidade. Não fui para as melhores festas com você. Não conheci seus novos amigos. Não conheci seu novo namorado. Nem servi de colo quando o namoro acabou. O tempo, a distância, os compromissos, as diferenças e as mudanças separaram a gente. Muitos diziam por aí que não éramos mais amigas. Alguns, até, ousaram dizer que nunca fomos. Amigas, quero dizer. Que nunca fomos amigas, você acredita? 

    Quando seu pai morreu, você não me ligou. Você mandou apenas uma mensagem, assim que recebeu a notícia: “preciso de você”, escreveu. Eu estava a, pelo menos, mil quilômetros de distância de você. Eu morava em outra cidade, estava casada e tinha dois filhos. E você mandou uma mensagem dizendo apenas “preciso de você”. Eu não sabia se você tinha sofrido um acidente, se alguém tinha morrido, se você tinha descoberto que estava grávida ou se apenas tinha acabado mais um namoro. Não importava. Eu arrumei uma mala com poucas coisas, liguei para o meu marido, avisei que iria viajar. Comprei uma passagem com um preço absurdo. Peguei um voo com muita turbulência. Paguei um táxi até a sua casa. E estive lá.

    Estive lá quando você precisou de mim.

   O velório estava vazio. As amigas que comemoraram sua entrada na faculdade não estavam lá. Seus companheiros de festa também não. Nem seu ex-namorado, que jurou no fim que você podia contar com ele para qualquer coisa. Poucos estavam do seu lado no momento mais difícil da sua vida até então. 

    Eu segurei sua mão durante todos os momentos. Fiquei ao seu lado enquanto desejavam os pêsames. Te abracei e escutei seu choro. Segurei seu corpo para você não desabar. 

    Porque isso chama amizade. Mesmo com o tempo, a distância e os desencontros. Mesmo eu não estando aqui sempre. Mesmo com os novos amigos, os novos amores e os novos objetivos. Bastou uma mensagem, um “preciso de você” e pronto. 

    Eu estive aí. 

    Sempre estive. 

    Sempre estarei.


Texto escrito pela colunista Érica Maria


21 agosto, 2013

Desde que você se foi



    O relógio já marca duas da manhã de uma madrugada que eu não sei mais de que dia é. Perdi a conta depois de tantas lágrimas. Perdi a conta depois das noites mal dormidas. Perdi a conta depois de você. Ou melhor: tenho evitado contar, porque a saudade que ficou aqui independe do tempo. Tenho sonhado que tudo não passou de uma brincadeira e a qualquer hora você entrará pela porta e se desculpará.

    Desculpa.

    Eu sei que de brincadeira nunca teve nada. É só que uma parte de mim continua se iludindo de que tudo isso é um grande pesadelo. E, enquanto eu me iludo, o ponteiro do relógio circula e me faz lembrar que eu não vou acordar, correr para os seus braços e respirar aliviada. E aí dói de novo como na hora da notícia.

    A parte forte de mim sabe bem que o que sobrou de você ficou em mim. E nas pessoas que você amava. E nas pessoas que ainda te amam. Os seus sorrisos, os seus olhares, os seus abraços, as suas palavras de carinho. Tudo ficou aqui, escancarado em nossas memórias, remoído em nossas lembranças, apertado em nossos corações. Aliás, fazer meu coração continuar batendo tem sido uma das tarefas mais difíceis desde que você se foi. Parece que você levou consigo o combustível que o mantinha saudável. Mas eu insisto. Continuo o deixando em atividade só para guardar você um pouco mais perto. E aí eu tento não desistir.

    Eu tento não olhar o relógio, eu tento não questionar a vida, eu tento não me revoltar com todos. É que no fundo, hoje, eu queria tão pouco perto de tudo o que eu já quis. Eu já quis uma profissão legal, um casamento bonito, uma família maravilhosa. Eu já quis os melhores amigos, eu já quis saúde, eu já quis sucesso. Hoje, eu queria só você. Você e o seu sorriso, você e o seu jeito de dizer que me amava, você e a sua voz. Você só mais um dia. Só mais o abraço que ficou faltando, o beijo que eu jamais vou dar.

    Mas como ainda não dá para te ter de novo, eu vou fazendo o que me resta: honrando a vida que você teve. Sabendo que você continua vivo em algum outro lugar mais lindo. Eu sei o que você diria se estivesse aqui: fica forte, vai em frente, eu quero te ver bem. É difícil, não vou mentir. Desculpa pela minha fraqueza. Pelas lágrimas que eu não evito. Pelo sofrimento que não afasto. Desculpa por estar joelhos, por ter o coração quebrado, por ainda me questionar. Eu levanto daqui, eu juro.

    Eu levanto e te honro. E continuo em frente. E cumpro a minha parte do acordo. Por tudo o que a gente sonhou, por tudo o que a gente sempre quis. Porque, hoje, ainda que eu permaneça muito tempo sem olhar os minutos que você não está, eu sei que você me olha de longe. Eu sei que quer ficar orgulhoso de mim. Eu sei que estará aqui todos os dias da minha vida. E eu vou fazer de tudo para você sorrir – aí, do seu lado do mundo, me olhando e cuidando de mim. 


Texto escrito pela colunista Érica Maria